O respeito à natureza tem
importância ética, afirma padre Mário ao refletir, no artigo deste mês,
sobre a importância de preservar o meio ambiente
Padre Mário Marcelo Coelho, scj
Doutor em Teologia Moral
Cuidar da Natureza
“E como ficar indiferentes diante das perspectivas de um desequilíbrio ecológico, que torna inabitáveis e hostis ao homem vastas áreas do planeta”? (Papa João Paulo II).
“E como ficar indiferentes diante das perspectivas de um desequilíbrio ecológico, que torna inabitáveis e hostis ao homem vastas áreas do planeta”? (Papa João Paulo II).
A natureza foi dada por Deus a todos,
constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os
pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira. A natureza está à
nossa disposição, não como “um monte de lixo espalhado ao acaso”, mas
como um dom do Criador que estabeleceu os seus ordenamentos naturais dos
quais o homem há de tirar as devidas orientações para a “conservar e
cultivar” (Gn 2,15).
Aconteceu, no mês de julho de 2015, no
Vaticano, uma conferência promovida pelas Academias Pontifícias da
Ciência e das Ciências Sociais sobre as “mudanças climáticas e as novas
formas de escravidão”. Duas emergências sociais às quais se refere o
Papa Francisco na sua Encíclica Laudato Si. Ao todo, o Papa
Francisco reuniu mais de 70 autarcas vindos de todo o mundo. Do Brasil,
compareceram os prefeitos de sete capitais: Belo Horizonte, Márcio
Lacerda (PSB); São Paulo, Fernando Haddad (PT); Porto Alegre, José
Fortunati (licenciado do PDT); Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB);
Salvador, ACM Neto (DEM); Curitiba, Gustavo Fruet (PDT); e Goiânia,
Paulo Garcia (PT).
O Santo Padre se fez presente discursando
aos participantes. O Papa afirmou que “essa atitude de cuidar do
ambiente não é uma atitude verde, é muito mais; cuidar do ambiente
significa uma atitude de ecologia humana, a ecologia é total, é humana”.
Nesse sentido, ele reforçou a ideia de que a Laudato Sí não é
uma encíclica verde, mas uma encíclica social, “porque da vida social
dos homens não podemos separar o cuidado com o ambiente, que é uma
atitude social”.
Igreja e meio ambiente
A Igreja sente a necessidade de cuidar da
criação e deve fazer valer essa responsabilidade também para a
sociedade em seu todo. Ao fazê-lo, não tem apenas de defender a terra, a
água e o ar que pertencem a todos, mas deve, sobretudo, proteger o
homem da destruição de si mesmo (ecologia humana). Quando a “ecologia
humana” é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia
ambiental. Para o Papa Francisco, “quando falamos de ‘meio ambiente’,
fazemos referência também a uma particular relação entre a natureza e a
sociedade que a habita. Isso nos impede de considerar a natureza como
algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos
incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos (Laudato Si, 139).
O tema apresentado está estreitamente
associado aos deveres que nascem do relacionamento do homem com o
ambiente natural. O respeito à natureza tem importância ética. O
problema ecológico é global, atinge a totalidade humana e pode tornar-se
uma ameaça à sobrevivência da humanidade. O nosso comportamento
individual e/ou comunitário tem efeito direto na totalidade da
comunidade humana. A interdependência dos organismos vivos é um alerta
para a responsabilidade maior do ser humano racional em relação à
totalidade.
A promoção da vida humana é o valor moral
básico, ou seja, o critério referencial para a avaliação ética dos
comportamentos; portanto, o ser humano vive dentro de um contexto
ambiental, de uma totalidade cósmica. Preservar o meio ambiente é
condição essencial de sobrevivência da humanidade; existe uma íntima
interdependência entre os organismos vivos. O Papa João Paulo II, em sua
mensagem para a jornada mundial da paz de 1990, afirma que a existência
de uma crise ambiental deve ser vista pela perspectiva de uma “profunda
crise moral, da qual a deterioração ambiental é um dos aspectos mais
preocupantes”.
O Papa Francisco, durante o encontro com
os autarcas, também se referiu ao fenômeno do crescimento desmedido das
cidades baseado em fenômenos migratórios que comportam consequências
negativas de exclusão. Esses fatores, juntamente com a idolatria da
tecnocracia, têm levado à falta de trabalho e ao desemprego. Disso
surgem os problemas do trabalho sem contrato e das novas formas de
escravidão, que se transformam em formas de sobrevivência: “… são fontes
de trabalho para poder sobreviver…”.
O Santo Padre terminou o seu discurso
pedindo o contributo dos presentes, para que o verdadeiro trabalho de
difusão de uma consciência ecológica venha da periferia para o centro
das decisões: “A Santa Sé ou um país pode fazer um belo discurso nas
Nações Unidas, mas se o trabalho não é feito das periferias para o
centro não tem efeito”.
Na Encíclica Laudato Si, no número 160, pergunta o Papa Francisco: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Essa pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores”.
Na Encíclica Laudato Si, no número 160, pergunta o Papa Francisco: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Essa pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores”.
Cuidado com o meio ambiente
Os projetos para um desenvolvimento
humano integral não podem ignorar o futuro da humanidade, mas devem ser
animados pela solidariedade e a justiça entre as gerações, tendo em
conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico, econômico, político e
cultural (Caritas in Veritate, 48). Devemos, porém, sentir como
responsabilidade o dever de entregar a terra às novas gerações num
estado tal que também elas possam dignamente habitá-la e continuar a
cultivá-la. Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com
os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em
relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros (Caritas in Veritate, 51).
Percebe-se hoje maior interesse pela
sensibilidade ecológica, mas é ainda pouco para mudar os hábitos danosos
de consumo, que não parecem diminuir; antes, expandem-se e
desenvolvem-se com o crescimento econômico de alguns países. Para que
aconteça, de fato, a mudança de hábitos que destroem o meio ambiente, é
preciso de uma “conversão ecológica”. “A conversão ecológica, que se
requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma
conversão comunitária” (Laudato Si, 219).
Hoje, torna-se mais urgente o alerta do
Papa João Paulo II: “Perante a difusa degradação do ambiente, a
humanidade já se vai dando conta de que não se pode continuar a usar os
bens da terra como no passado. A opinião pública e os responsáveis
políticos estão preocupados com isso; e os estudiosos das mais diversas
disciplinas debruçam-se sobre as causas do que sucede. Está assim a
formar-se uma consciência ecológica, que não deve ser reprimida, mas
antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até
encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas”.
Na encíclica Laudato Sí,117, o
Papa Francisco manifesta certa inquietação quando fala: “Falta de
preocupação por medir os danos à natureza e o impacto ambiental das
decisões é apenas o reflexo evidente do desinteresse em reconhecer a
mensagem que a natureza traz inscrita nas suas próprias estruturas.
Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância dum pobre,
dum embrião humano, duma pessoa com deficiência, dificilmente se saberá
escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado. Se o ser
humano se declara autônomo da realidade e se constitui dominador
absoluto, desmorona-se a própria base da sua existência, porque em vez
de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o
homem substitui-se a Deus, e, desse modo, acaba por provocar a revolta
da natureza”.
Fonte Canção Nova

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