Somos parte de uma sociedade em crise
Esta é uma clamorosa convocação
proclamada pelo profeta Joel em época remota, há cerca de 400 anos antes de
Cristo. O clamor do profeta é um apelo que indica o caminho para se vencer as
pragas. Hoje, ainda que não acolhida pela vivência da religiosidade, é oportuno
ouvi-la e compreendê-la como interpelação para enfrentar as crises que estão
desarrumando o funcionamento da sociedade. Particularmente, é importante
escutá-la quando se chega à conclusão de que a maior crise na atualidade é a de confiança. A
credibilidade está em baixa, em razão de posturas e práticas adotadas na esfera
privada e no inadequado tratamento do que é de domínio público. É hora de um
recomeço, que é complexo e altamente exigente. Esse processo exige a
indispensável ação e posicionamentos de lideranças, para que se alcance um novo
tempo pela força da credibilidade que cada cidadão precisa prezar. Ser digno de
confiança é o aspecto mais honroso da vida particular, profissional e cidadã.
As muitas reformas necessárias para
superar os graves problemas enfrentados pelo país demandam a mudança
prioritária e urgente do próprio coração, que é referência simbólica da
confluência da racionalidade e dos sentimentos. O coração é lugar da produção e
da manutenção de uma consciência pautada em valores cidadãos, no gosto pelo
altruísmo e no mais nobre sentido de respeito ao outro. A incompetência
humanística de lideranças e a falta de densidade espiritual são os mais
desafiadores obstáculos que impedem a recuperação da confiança.
A
mesquinhez de se priorizar o atendimento de interesses cartoriais, a estreiteza
dos egoísmos, a busca do lucro e da acumulação de riquezas sem parâmetros
éticos produziram processos de desumanização que agora não são fáceis de serem
revertidos. Sem a recuperação da confiança, alicerçada na verdade das ações e
na reverência pela justiça, de nada adiantará a operação de um conjunto, mesmo
significativo, de reformas. As mudanças precisam ser precedidas e acompanhadas
pela reforma do coração. “Rasgai o coração” precisaria se tornar uma “onda” que
leva a um despertar novo da consciência. Um movimento que deveria envolver,
inicialmente, os mais altos dirigentes, os ocupantes de cargos representativos,
os formadores de opinião e os que têm papel mais decisivo na construção da
sociedade. Essa “onda” deve incluir o cidadão simples, que paga o preço mais
alto por tudo o que está na raiz da falta de confiança.
A
crise de credibilidade envenena os funcionamentos de instituições diversas e
desestabiliza as relações interpessoais. Trata-se de um sério problema que não
se enfrenta sem a recuperação da competência humanística e também espiritual. A
carência dessa qualificação leva às escolhas equivocadas que impedem a
sociedade de funcionar nos parâmetros da verdade e da justiça. É hora de fixar
o olhar não apenas nas dinâmicas viciadas em tantos segmentos, setores e
instâncias. É urgente e prioritária uma reconfiguração do sentido mais profundo
que rege o coração.
“Rasgar o coração” é prática que sempre se começa por uma escuta
mais atenta e permanente dos clamores dos mais pobres. É inadiável o exercício de reconhecer
e buscar superar as muitas misérias, todas produzidas pela falta de cidadania.
Trata-se de tarefa capaz de gerar novas lideranças. “Rasgai os corações” é
convocação e também um alerta. Indica que eventuais novas estruturas e
funcionamentos, se não forem alcançados sem a geração interior e pessoal de novas
atitudes, mais cedo ou mais tarde, se tornarão também corruptos, pesados e
ineficazes.
É
hora de ouvir o clamor dos mais pobres. Estamos todos desafiados a enfrentar a
crise de credibilidade com novas respostas, particularmente com um discurso
político que não seja paliativo. A sociedade na qual estamos inseridos estampa
a vergonha de uma generalizada falta de envergadura moral e solidária. Um mal
que cria o ambiente propício para sermos, cedo ou tarde, as próprias vítimas de
alguma praga. O alcançar de um novo tempo tem como ponto de partida o convite:
Rasgai o coração!

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